{"id":6605,"date":"2026-09-01T11:33:31","date_gmt":"2026-09-01T14:33:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/?p=6605"},"modified":"2026-09-23T12:26:39","modified_gmt":"2026-09-23T15:26:39","slug":"a-conta-chegou-por-que-tantas-empresas-estao-em-recuperacao-judicial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/?p=6605","title":{"rendered":"A Conta Chegou: Por Que Tantas Empresas Est\u00e3o em Recupera\u00e7\u00e3o Judicial"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O Brasil chegou ao segundo trimestre de 2026 com um recorde de 6.341 empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial. A crise atravessa setores, mas os juros explicam apenas parte da hist\u00f3ria<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Em poucos meses, uma lista de nomes conhecidos passou a engrossar os tribunais e as mesas de negocia\u00e7\u00e3o de credores. Casas Bahia. Marabraz. Tok&amp;Stok e Mobly. St. March\u00e9. Braskem. Ra\u00edzen. Grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. Habib\u2019s. As hist\u00f3rias por tr\u00e1s de cada caso s\u00e3o diferentes. H\u00e1 empresas pressionadas por d\u00edvidas acumuladas, outras por problemas de gest\u00e3o, mudan\u00e7as no mercado ou choques espec\u00edficos. Mas a sucess\u00e3o de nomes revela um fen\u00f4meno maior. Companhias de setores distintos est\u00e3o chegando, quase ao mesmo tempo, \u00e0 mesma mesa: a da renegocia\u00e7\u00e3o de suas d\u00edvidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Os dados ajudam a dimensionar a tend\u00eancia. Em maio de 2026, o Monitor RGF de Recupera\u00e7\u00e3o Judicial registrava 6.341 empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial em sua base restrita \u2013 um recorte que exclui as microempresas e abrange um universo de cerca de 2,7 milh\u00f5es de empresas ativas. O \u00edndice equivale a 2,32 empresas em recupera\u00e7\u00e3o para cada mil companhias acompanhadas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria \u00e9 ascendente desde 2023. No primeiro trimestre daquele ano, eram 4.014 empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial. Em pouco mais de tr\u00eas anos, o n\u00famero avan\u00e7ou quase 58%. Entre os setores mais afetados est\u00e3o com\u00e9rcio, ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o e agropecu\u00e1ria. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"432\" src=\"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Novo-Tamanho-Site-2026-08-31T161518.692-768x432-1.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-6606\" srcset=\"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Novo-Tamanho-Site-2026-08-31T161518.692-768x432-1.webp 768w, https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Novo-Tamanho-Site-2026-08-31T161518.692-768x432-1-300x169.webp 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">RGF-BIZDOC<br>Monitor RJ \u2013 Recupera\u00e7\u00e3o Judicial, Extrajudicial e Fal\u00eancias \u2013 RGF-BIZDOC<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O fen\u00f4meno tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 concentrado nas grandes corpora\u00e7\u00f5es que dominam as manchetes, ele atravessa diferentes portes, mas se concentra nas m\u00e9dias empresas, que respondem por 49% das 6.341 companhias em recupera\u00e7\u00e3o judicial no recorte. Em termos proporcionais, por\u00e9m, a vulnerabilidade cresce entre as maiores: o \u00cdndice de Recupera\u00e7\u00e3o Judicial (IRJ) chega a 14,4 casos por mil empresas muito grandes e a 11,7 entre as grandes, ante 2,5 entre as m\u00e9dias e apenas 0,1 entre as microempresas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">As m\u00e9dias empresas s\u00e3o o centro num\u00e9rico da onda. Os grandes grupos s\u00e3o sua face mais vis\u00edvel e, pelo tamanho de suas d\u00edvidas e pelo n\u00famero de credores que envolvem, t\u00eam potencial para produzir os efeitos mais amplos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A conta chegou<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A crise que agora aparece nos tribunais come\u00e7ou a ser constru\u00edda quando o dinheiro ainda era barato. Durante a pandemia, empresas brasileiras recorreram ao cr\u00e9dito para atravessar um per\u00edodo de receitas incertas, lojas fechadas e atividade econ\u00f4mica paralisadas. Com a Selic em 2% ao ano e programas de financiamento subsidiado, tomar empr\u00e9stimos era, em muitos casos, uma forma de sobreviver \u2013 pagar fornecedores, financiar estoques, manter funcion\u00e1rios e preservar a opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que a d\u00edvida n\u00e3o desapareceu quando a pandemia terminou. Em muitos casos, ela foi renovada. As empresas refinanciaram empr\u00e9stimos, emitiram novos t\u00edtulos e recorreram a diferentes fontes de capital para administrar passivos acumulados. O cr\u00e9dito barato ajudou a atravessar a crise, mas tamb\u00e9m contribuiu para ampliar o endividamento. E, quando chegou a hora de renovar essas d\u00edvidas, o cen\u00e1rio havia mudado radicalmente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Segundo Carla Beni, economista e professora da FGV, parte das dificuldades atuais nasceu justamente desse descompasso. \u201cEm 2020, a Selic chegou a 2%, e tivemos uma s\u00e9rie de programas com cr\u00e9dito subsidiado. As empresas puderam tomar empr\u00e9stimos, inclusive para financiar a folha de pagamentos e evitar demiss\u00f5es.\u201d A mudan\u00e7a veio depois, com a r\u00e1pida alta do custo do dinheiro. \u201cQuando chegou o momento de renovar esses empr\u00e9stimos, o custo do capital era completamente diferente.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">\u00c9 essa passagem \u2013 do cr\u00e9dito barato para o refinanciamento caro \u2013 que ajuda a explicar por que problemas acumulados durante anos come\u00e7aram a aparecer agora. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Para Armando Castelar, economista e ex-chefe do Departamento de Economia do BNDES, os juros elevados funcionaram como um agravante para empresas que j\u00e1 carregavam fragilidades pr\u00f3prias. \u201cN\u00e3o existe um \u00fanico fator que explique tudo. Mas, sem d\u00favida, juros altos durante um per\u00edodo prolongado, em uma realidade de forte aumento do endividamento, contribu\u00edram para agravar a situa\u00e7\u00e3o de empresas que j\u00e1 enfrentavam problemas de gest\u00e3o, de mercado ou outros choques.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a outros ciclos de aperto monet\u00e1rio, argumenta Castelar, est\u00e1 no tamanho da d\u00edvida acumulada. O Brasil j\u00e1 conviveu com juros ainda mais elevados. Mas, no passado, o cr\u00e9dito representava uma parcela menor da economia e empresas e fam\u00edlias carregavam menos obriga\u00e7\u00f5es financeiras. Desta vez, o aperto encontrou uma economia muito mais endividada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, a expans\u00e3o do cr\u00e9dito foi acompanhada pelo crescimento do pr\u00f3prio mercado de capitais como fonte de financiamento. Empresas passaram a ter mais instrumentos para captar recursos \u2013 de deb\u00eantures a CRAs e CRIs, entre outras estruturas. Isso ampliou as alternativas de financiamento e reduziu a depend\u00eancia exclusiva dos bancos. Mas tamb\u00e9m multiplicou os canais pelos quais a d\u00edvida se espalhou pela economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">\u201cO que mais mudou foi o forte aumento do endividamento, impulsionado tamb\u00e9m pelo desenvolvimento do mercado de capitais\u201d, diz Castelar. \u201cHoje existem instrumentos como CRAs, deb\u00eantures incentivadas e outras formas de financiamento que n\u00e3o tinham a mesma relev\u00e2ncia no passado. Isso facilitou muito o endividamento empresarial.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A imagem \u00e9 a de uma conta que foi sendo rolada de um ano para o outro, enquanto havia cr\u00e9dito dispon\u00edvel e expectativa de que o custo do dinheiro cairia. Quando os juros permaneceram elevados por mais tempo do que muitas empresas esperavam, essa estrat\u00e9gia ficou mais dif\u00edcil de sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O juro alto, portanto, n\u00e3o criou necessariamente a crise de cada companhia. Mas tornou muito mais caro conviver com problemas que j\u00e1 existiam. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 central para entender 2026. H\u00e1 empresas com modelos de neg\u00f3cio pressionados pela transforma\u00e7\u00e3o do consumo. H\u00e1 companhias afetadas por problemas de governan\u00e7a, decis\u00f5es de gest\u00e3o ou choques espec\u00edficos. Outras carregam passivos que v\u00eam de muitos anos. O elemento comum \u00e9 que, em um ambiente de cr\u00e9dito mais caro, ficou mais dif\u00edcil adiar o acerto de contas. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Juros s\u00e3o o pano de fundo, n\u00e3o o roteiro<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Seria tentador encontrar um \u00fanico culpado para a sucess\u00e3o de recupera\u00e7\u00f5es. Com os juros elevados e o custo do cr\u00e9dito pressionando balan\u00e7os empresariais, a explica\u00e7\u00e3o mais imediata seria atribuir a onda de crises \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria. Mas os casos mostram uma realidade mais complicada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Os juros s\u00e3o o pano de fundo. N\u00e3o s\u00e3o o roteiro de cada crise.<\/strong> Uma taxa elevada pode transformar uma d\u00edvida administr\u00e1vel em um problema urgente. Pode dificultar o refinanciamento, reduzir o caixa dispon\u00edvel para investimentos e aumentar o risco de inadimpl\u00eancia. Mas n\u00e3o explica, por si s\u00f3, por que empresas de setores t\u00e3o diferentes chegaram \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial ou extrajudicial. (Ver imagem abaixo dos diferentes setores em RJ)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"432\" src=\"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ChatGPT-Image-31-de-ago.-de-2026-16_21_14-768x432-1.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-6607\" srcset=\"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ChatGPT-Image-31-de-ago.-de-2026-16_21_14-768x432-1.webp 768w, https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ChatGPT-Image-31-de-ago.-de-2026-16_21_14-768x432-1-300x169.webp 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Forbes\/RGF-BIZDOC<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria da Braskem, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 a mesma da Casas Bahia. A companhia petroqu\u00edmica carrega os efeitos de um problema espec\u00edfico e de um passivo bilion\u00e1rio relacionado ao desastre geol\u00f3gico em Macei\u00f3. A Oi, cuja trajet\u00f3ria de dificuldades financeiras atravessa mais de uma d\u00e9cada, tampouco pode ser explicada pelo atual ciclo de juros. No varejo, a equa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra: al\u00e9m do endividamento, empresas tradicionais enfrentam uma transforma\u00e7\u00e3o acelerada no comportamento do consumidor e a necessidade de sustentar estruturas f\u00edsicas em um mercado cada vez mais digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O que as aproxima n\u00e3o \u00e9 necessariamente a origem da crise, mas o ambiente em que essas fragilidades passaram a ser testadas. Juros altos funcionam como um teste de estresse para problemas que antes podiam ser administrados ou, simplesmente, adiados. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Uma empresa pode ter tomado decis\u00f5es ruins de investimento. Outra pode ter demorado a adaptar seu modelo de neg\u00f3cios. Uma terceira pode ter sido atingida por um evento extraordin\u00e1rio. Nenhuma dessas situa\u00e7\u00f5es foi necessariamente criada pelos juros. Mas todas se tornam mais dif\u00edceis de administrar quando o dinheiro custa mais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Carlos Honorato, economista e professor da FIA, faz uma distin\u00e7\u00e3o semelhante ao analisar o varejo. O setor que concentra o maior n\u00famero de empresas em recupera\u00e7\u00e3o judicial no levantamento, com 1.333 casos. Para ele, os juros elevados s\u00e3o uma parte importante da explica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o podem servir como justificativa universal. \u201cOs juros explicam parte do problema, mas n\u00e3o justificam tudo.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">No varejo, a press\u00e3o \u00e9 particularmente complexa porque atua nos dois lados do neg\u00f3cio. As empresas dependem de cr\u00e9dito para financiar estoques e capital de giro, mas tamb\u00e9m dependem de um consumidor com disposi\u00e7\u00e3o, e capacidade, para comprar. Quando o cr\u00e9dito fica caro, a conta aperta simultaneamente no caixa da companhia e no bolso do cliente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Mas o setor tamb\u00e9m enfrenta problemas que n\u00e3o nasceram do atual ciclo de juros. A expans\u00e3o do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico alterou h\u00e1bitos de consumo e elevou a concorr\u00eancia, enquanto empresas tradicionais precisaram adaptar redes de lojas, log\u00edstica e modelos de neg\u00f3cio a uma din\u00e2mica mais digital. Em alguns casos, essa transforma\u00e7\u00e3o ocorreu sobre estruturas constru\u00eddas para outro mercado e financiadas por d\u00edvidas acumuladas ao longo de anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a importa. Atribuir todas as recupera\u00e7\u00f5es \u00e0 economia atual transformaria empresas com hist\u00f3rias radicalmente distintas em v\u00edtimas do mesmo acidente. O quadro parece ser outro: 2026 reuniu, sob a mesma press\u00e3o financeira, problemas que j\u00e1 vinham se formando em ritmos diferentes. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Em alguns casos, a recupera\u00e7\u00e3o representa a etapa mais recente de uma crise longa. Em outros, \u00e9 a tentativa de reorganizar uma estrutura financeira que deixou de ser sustent\u00e1vel. E, em empresas que dependem fortemente do mercado interno, a dificuldade \u00e9 dupla: ao mesmo tempo em que o custo de suas d\u00edvidas aumenta, o consumidor tamb\u00e9m se torna mais cauteloso e endividado. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A consequ\u00eancia \u00e9 uma esp\u00e9cie de sele\u00e7\u00e3o financeira. Em tempos de dinheiro barato, empresas fr\u00e1geis podem sobreviver por mais tempo. Quando o capital se torna caro, as diferen\u00e7as entre modelos de neg\u00f3cio sustent\u00e1veis e insustent\u00e1veis, entre d\u00edvidas administr\u00e1veis e excessivas, e entre problemas tempor\u00e1rios e estruturais ficam mais evidentes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A crise sai da empresa e entra no sistema<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Uma recupera\u00e7\u00e3o judicial come\u00e7a com uma empresa. A conta, por\u00e9m, raramente fica restrita a ela. Quando uma grande companhia reestrutura suas d\u00edvidas, o preju\u00edzo precisa encontrar novos donos. Fornecedores podem receber menos ou mais tarde. Bancos e investidores precisam reconhecer perdas ou rever o risco de suas carteiras. Fundos podem descobrir exposi\u00e7\u00e3o a t\u00edtulos que, at\u00e9 pouco tempo antes, pareciam apenas mais uma fonte de rendimento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">\u00c9 essa dispers\u00e3o da d\u00edvida que torna a sequ\u00eancia de grandes recupera\u00e7\u00f5es mais relevante para a economia do que a simples contagem de pedidos. Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa, observa que o colapso financeiro costuma ser precedido por sucessivas tentativas de financiamento. Antes de chegar \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o, a empresa pode ter recorrido a deb\u00eantures, CRIs, CRAs e outras formas de capta\u00e7\u00e3o. Quando a crise finalmente explode, o risco j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 concentrado em seu balan\u00e7o. \u201cA crise de uma empresa nunca \u00e9 s\u00f3 dela\u201d, diz. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A recupera\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o elimina o preju\u00edzo. Ela reorganiza quem ter\u00e1 de absorv\u00ea-lo. E quanto maior a empresa, maior tende a ser a rede atingida. Um grande cliente em recupera\u00e7\u00e3o pode pressionar o caixa de seus fornecedores. Um t\u00edtulo em dificuldade pode afetar fundos e investidores. Uma renegocia\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e perdas aos credores altera o capital dispon\u00edvel para financiar outras empresas. \u00c9 assim que uma crise empresarial deixa de ser apenas empresarial. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o \u00e9 domin\u00f3. \u00c9 cont\u00e1gio<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que uma recupera\u00e7\u00e3o provoque automaticamente outra. Os especialistas ouvidos pela reportagem rejeitam a ideia de uma fila inevit\u00e1vel de empresas rumo aos tribunais. Cada caso tem sua pr\u00f3pria origem. A Braskem n\u00e3o \u00e9 a Casas Bahia; uma crise societ\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 o mesmo que um modelo de neg\u00f3cios em transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O que pode se espalhar \u00e9 outra coisa: a desconfian\u00e7a. Quando grandes empresas deixam de honrar suas d\u00edvidas nas condi\u00e7\u00f5es originalmente contratadas, o mercado recalcula o pre\u00e7o do risco. Bancos podem reduzir limites. Fornecedores podem encurtar prazos. Investidores podem exigir mais garantias e retornos maiores. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Marco T\u00falio, advogado especializado em recupera\u00e7\u00e3o judicial da Abi Ackel Advogados<\/strong>, v\u00ea esse como um dos principais canais de transmiss\u00e3o dos casos recentes. O efeito n\u00e3o \u00e9 jur\u00eddico, mas financeiro: uma sequ\u00eancia de crises torna o cr\u00e9dito mais seletivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a entre domin\u00f3 e cont\u00e1gio \u00e9 importante. No primeiro, uma empresa cai porque a outra caiu. No segundo, a queda de uma muda as condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia das demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Empresas saud\u00e1veis tamb\u00e9m podem sentir esse efeito. N\u00e3o porque tenham os mesmos problemas das companhias em recupera\u00e7\u00e3o, mas porque passam a negociar com credores mais cautelosos. Para as mais fr\u00e1geis, isso pode criar um c\u00edrculo particularmente perigoso: quanto maior a percep\u00e7\u00e3o de risco, mais caro o dinheiro; quanto mais caro o dinheiro, mais dif\u00edcil sustentar uma d\u00edvida elevada. A recupera\u00e7\u00e3o de uma empresa pode n\u00e3o derrubar a pr\u00f3xima. Mas pode tornar sua d\u00edvida mais dif\u00edcil de carregar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Solu\u00e7\u00e3o ou brecha?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A expans\u00e3o das recupera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m recoloca uma pergunta desconfort\u00e1vel: at\u00e9 onde deve ir a prote\u00e7\u00e3o dada a uma empresa em crise? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica da recupera\u00e7\u00e3o judicial \u00e9 preservar neg\u00f3cios economicamente vi\u00e1veis. Se uma empresa vale mais funcionando do que sendo liquidada, credores, trabalhadores e a economia podem se beneficiar de uma reestrutura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Mas preservar a empresa n\u00e3o significa preservar integralmente os cr\u00e9ditos. Planos podem alongar prazos e impor des\u00e1gios. Para o devedor, \u00e9 f\u00f4lego. Para o credor, \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o de que receber\u00e1 menos e mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O advogado Marco T\u00falio<\/strong> chama aten\u00e7\u00e3o para a inexist\u00eancia de um limite legal espec\u00edfico para o percentual de des\u00e1gio. Na pr\u00e1tica, a negocia\u00e7\u00e3o pode envolver cortes profundos no valor das d\u00edvidas, desde que observadas as regras do processo e a aprova\u00e7\u00e3o dos credores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A recupera\u00e7\u00e3o, assim, abre uma disputa sobre como repartir perdas que j\u00e1 existem. \u00c9 nesse ponto que Armando Castelar faz sua ressalva. O instrumento, diz, precisa ser usado para salvar empresas cuja continuidade fa\u00e7a sentido econ\u00f4mico, e n\u00e3o como um mecanismo oportunista para simplesmente deixar de pagar d\u00edvidas. \u201cPrecisa ser alguma coisa que n\u00e3o gere oportunismo das empresas para simplesmente tentar n\u00e3o pagar suas d\u00edvidas\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sugerir que as empresas que entraram em recupera\u00e7\u00e3o em 2026 tenham recorrido indevidamente ao processo. \u00c9 outra: quanto mais comum se torna o instrumento, maior se torna o debate sobre seus incentivos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Um sistema r\u00edgido demais pode empurrar empresas vi\u00e1veis para a fal\u00eancia. Um sistema tolerante demais pode fazer os credores cobrar mais caro de todos antes de emprestar. A recupera\u00e7\u00e3o judicial resolve uma crise dividindo seu custo. A discuss\u00e3o \u00e9 sobre at\u00e9 que ponto essa divis\u00e3o preserva a empresa sem destruir a confian\u00e7a necess\u00e1ria para financiar a pr\u00f3xima. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A pr\u00f3xima conta<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A onda de 2026 pode n\u00e3o ter terminado. Para algumas empresas, uma futura queda dos juros poder\u00e1 trazer al\u00edvio. Para outras, talvez chegue tarde demais. Uma redu\u00e7\u00e3o no custo do dinheiro melhora a matem\u00e1tica da d\u00edvida, mas n\u00e3o corrige automaticamente problemas de gest\u00e3o, modelos de neg\u00f3cio ultrapassados ou mercados que mudaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda outro risco. Uma desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pode ajudar a abrir espa\u00e7o para juros menores, mas tamb\u00e9m reduzir receitas justamente das empresas que precisam de caixa para sobreviver at\u00e9 que o al\u00edvio chegue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Armando Castelar resume esse dilema: a atividade mais fraca pode facilitar a queda dos juros, ao mesmo tempo em que torna mais dif\u00edcil a vida das companhias financeiramente vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O desafio, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas <strong>quanto os juros v\u00e3o cair. \u00c9 quem conseguir\u00e1 esperar por eles. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">As empresas que ainda n\u00e3o recorreram \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o continuam enfrentando vencimentos, fornecedores e um mercado de cr\u00e9dito mais atento ao risco. E, depois de uma sequ\u00eancia de grandes crises, ganhar tempo deixou de ser uma estrat\u00e9gia t\u00e3o simples quanto antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">2026 pode entrar para a hist\u00f3ria como o ano das recupera\u00e7\u00f5es judiciais n\u00e3o porque todas as empresas tenham sofrido da mesma doen\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio. <strong>Foi o ano em que crises muito diferentes chegaram, quase ao mesmo tempo, ao mesmo ponto de encontro: a d\u00edvida que j\u00e1 n\u00e3o podia mais ser carregada nas condi\u00e7\u00f5es anteriores.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O cr\u00e9dito barato ajudou a adiar algumas decis\u00f5es. A recupera\u00e7\u00e3o judicial oferece uma nova oportunidade para reorganiz\u00e1-las. A pr\u00f3xima conta ser\u00e1 saber quantas empresas ainda precisam dessa segunda chance, e quantas conseguir\u00e3o us\u00e1-la para voltar a ser vi\u00e1veis. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marco T\u00falio Dias, S\u00f3cio-Diretor do Abi-Ackel Advogados<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia mais em: <a href=\"https:\/\/forbes.com.br\/forbes-money\/2026\/09\/recuperacoes-judiciais-brasil-juros-dividas-empresas-crise\/\">https:\/\/forbes.com.br\/forbes-money\/2026\/09\/recuperacoes-judiciais-brasil-juros-dividas-empresas-crise\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a Forbes Brasil, Marco T\u00falio Dias, S\u00f3cio-Diretor do Abi-Ackel Advogados, analisa os efeitos do avan\u00e7o das recupera\u00e7\u00f5es judiciais sobre o cr\u00e9dito, os credores e os neg\u00f3cios.  <\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":6608,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"mostrar_na_home":[],"class_list":["post-6605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-abi-ackel-mais"],"acf":[],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"2026-09-30 18:59:39","action":"change-status","newStatus":"draft","terms":[],"taxonomy":"category","extraData":[]},"publishpress_future_workflow_manual_trigger":{"enabledWorkflows":[]},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6605"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6605\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6609,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6605\/revisions\/6609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6605"},{"taxonomy":"mostrar_na_home","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abiackeladvogados.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmostrar_na_home&post=6605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}